Por Leandro Prazeres
O café já havia sido servido quando uma mulher vestindo blusa verde, bermudas e jaqueta jeans atravessou a rua, o portão e o pátio da Igreja do Divino Espírito Santo à procura da irmã Patrícia Licandro, vice-coordenadora da Pastoral da Mobilidade. Patrícia não estava lá e a mulher, visivelmente nervosa, desatou a falar. “Eu não aguento mais esses haitianos na frente da oficina do meu pai. Eles urinam lá o tempo todo e estão afastando os clientes do meu pai, que está até em depressão. Vou na polícia saber se eu posso colocar uma placa dizendo: proibida a presença de haitianos”, disse.
O episódio mostra que a paciência da população de Tabatinga para com os haitianos está chegando ao fim. Seja por conta das diferenças culturais ou por mero preconceito, o incômodo está cada vez mais latente e já começa a ser tornar tangível.
A poucos metros da a Igreja do Divino Espírito Santo, ainda pela manhã, duas professoras da rede pública de Ensino conversam animadas, sentadas à mesa de uma mercearia. “Eu chamei uma haitiana para trabalhar na minha casa. Um dia eu voltei mais cedo e encontrei ela na cama da minha filha com outro haitiano. Não dá para confiar nesse povo”, disse a professora mostrando que um episódio que poderia acontecer com gente de qualquer nacionalidade ganha outros contornos quando se trata dos haitianos.
Como em todo processo migratório, são esses pequenos incidentes que criam os estigmas. “Eu já vejo crianças brincando entre si e chamando as mais morenas de haitianos. É isso que a gente tenta evitar, porque é assim que começa a discriminação”, contou Patrícia Licandro, preocupada com a possibilidade de que as boas-vindas dêem lugar a alguma hostilidade.
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Diferenças
A comunidade haitiana também já sentiu que o humor da cidade interiorana está mudando diante da presença constante dos imigrantes.
“Nós sabemos que há diferenças culturais e que elas podem causar algum incômodo para a população daqui, mas não viemos para criar problemas”, diz Ernest Cassius, 33, um ex-estudante de economia que presidia, até o último sábado (21) o Comitê dos Haitianos de Tabatinga, entidade criada pelos imigrantes para representá-los junto às autoridades brasileiras.
A impaciência da população de Tabatinga também já ficou evidente na redução drástica das doações coletadas pela Pastoral da Mobilidade Humana. “Antes, todos os empresários e boa parte da população doavam comida e mantimentos, agora alguns já nos olham de cara feia. Eles estão cansados da gente pedindo doações”, contou Patrícia Licandro.
A falta de pessoal no departamento de Imigração da Polícia Federal em Tabatinga aumentou ainda mais o tempo de permanência dos haitianos na cidade, criando uma tensão desnecessária. A maioria dos haitianos demora, em média, de três a quatro meses para receber o protocolo do pedido de refúgio, documento que os permite seguir viagem e trabalhar.
A tensão é velada mas perceptível a qualquer um que caminhe pelas ruas de Tabatinga; mesmo assim a maioria dos haitianos não se queixa de discriminação ou hostilidades. “Eles nos tratam bem aqui. Não é como em outros lugares por onde passamos”, diz Florestil Dieu-Grand, 31, que deixou seis filhos e a esposa para trás em busca do eldorado brasileiro.
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Xenofobia
Preocupada com o aumento da tensão entre haitianos e a população local, representantes da Igreja Católica e da ong Médicos Sem Fronteiras (MSF) têm ido às rádios e usado os cultos para explicar a dramaticidade da situação. “Nós vamos às missas e a programas nas rádios locais para dizer que essa situação é provisória, que eles não vão ficar aqui para sempre e que precisam da ajuda dos moradores”, diz Renata Oliveira, coordenadora do MSF em Tabatinga.
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Disputa por emprego acirra tensão
Mas não são apenas os conflitos culturais que vêm aumentando a tensão entre a comunidade haitiana e os tabatinguenses. A disputa pelos poucos recursos financeiros disponíveis na cidade é cada vez maior. Dos 52 mil habitantes de Tabatinga (Censo 2010), 21,4 mil são considerados pobres e os poucos empregos formais estão na Prefeitura, no Governo do Estado e no comércio.
“Somos uma cidade sem indústria, boa parte da população vive na pobreza e depende do governo ou da prefeitura. Os empregos são escassos e os haitianos estão ocupando vários postos de trabalho”, afirmou Raimundo Nonato Gomes, da Associação Comercial.
Desde que chegaram, porém, os haitianos têm conseguido empregos na construção civil, nos portos e no setor informal. Tanta disponibilidade para o trabalho tirou o lugar de muitos brasileiros e, sobretudo, da população flutuante peruana.
O prefeito de Tabatinga, Saul Nunes, sintetiza essa disputa. “Quando um caboclo vai para uma obra, ele chega lá e vê um monte de haitiano trabalhando. Aí ele vai para o porto para ver se consegue descarregar um barco. Chega lá e já tem um monte de haitiano trabalhando. De uma forma ou de outra, os haitianos estão tirando os empregos da população local”, disse Saul.
Para agravar ainda mais a situação, o município, cujo orçamento é de meros R$ 4,5 milhões por mês, ainda não recebeu nenhum centavo de ajuda federal para lidar com os haitianos. “As únicas pessoas de Brasília com quem conversei sobre o assunto foram os jornalistas. Do governo, ninguém”, afirma o prefeito.
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Assim fica fácil ajudar.
Em primeiro lugar sou cristã e professora do IFAM.Permitam-me elogiar as pastorais e a igreja Assembléia de Deus pela acolhida aos refugiados do terremoto no Haiti. Penso que todos devemos ajudá-los sim, mas oss governantes, os comerciantes, e todos os seguimentos da sociedade devem compartilhar com o sofrimrnto deste povo, mas não devem esqquecer do nosso povo também.Sei que tem tanto jovem fora das escolas e no mundo da violência e droga, que devemos agir e nos unir pois estamos no mundo cheio de poluição, devemos sempre pensar se estivéssemos no lugar não só dos Haitianos, mas do africanos, dos povos do Japão e de tanto lugar onde há sofrimento, miséria e fome. Tem tanto dinheiro arrecadado dos impostos dos brasileiros, tanto teleton, tanto dinheiro pagos dos dízimos nas igrejas usados para financiar canais de TV, tanto dinheiro para pagar jogadores arrecadados de jogos milionários, pagos dos Shows para cantores de Rock Rio, evangélicos, para onde vão toda essas fortunas e ninguém se preoculpa quase com ninguém, fica só na propaganda de TV, jornais e revistas;aonde estão as ongs e Teltons, gastos milionários de Big broders , etc. Peguem os milionários do mundo doem-se mais para ajudar os seus familiares, os pobres.Faço isto com meus familiares, ajudo alguns alunos com uma pequena escola. Gostaria de poder doar um rancho e vou fazer, sou apenas uma professora assalariada… Uma braço fraterno.
Ajude os Haitianos a melhorar o processo de higiene. alguém deve mostrar que brasileiro tem outros costumes.
Engraçado, os haitianos estao procurando trabalho e o povo daqui reclama como se gostasse de trabalhar e como se fossem limpinhos. Por favor, quem ja procurou um pedreiro, marceneiro, empregada domestica ou faxineira no Amazonas,sabe muito bem que muita gente esta desempregada porque efetivamente nao quer trabalhar. Qualquer mao de obra em Manaus e dificil, o pedreiro recebe adiantado e some, a faxineira vem um dia no outro esta “doente”,o pai morreu, o vizinho morreu.. agora vem o povo amazonense dizer que vai perder trabalho?? Sei!! Quem quer trabalhar nessa terra, sempre tem emprego, agora quem so quer emprego na flauta que se dane. E mais… onde se viu dizer que os amazonences nao sujam as ruas, nao urinam nas ruas??? E so dar uma passadinha nas ruas dessa cidade, ate em bairros “nobres” e ver as imundice a falta de educacao e publica e notoria.
Os haitianos tem direito a tentar uma vida nova em qualquer lugar do mundo e inclusive aqui no amazonas que tem muita terra em maos de poucas pessoas oportunistas.
A Lu antecipou todas as palavras que eu queria dizer com relação a essa abobrinha de “tirar emprego do amazonense”.
Sou nascido no Estado mas dá vergonha da ‘força’ de trabalho do pessoal daqui. Já parece ser um problema enraizado o índice de absenteísmo nas empresas.
Os haitianos (e os ‘estrangeiros’ de SP, RJ, PA, etc) não estão tirando os empregos dos amazonenses. Os empregos são de quem realmente os merece.
Wagner e Lu, faço minhas suas palavras.