Uma colega advogada esteve hoje à tarde em meu escritório pedindo auxilio quanto ao peticionamento eletrônico, e enquanto fazíamos o peticionamento ela indagava sobre como eu escolhia meus clientes. Expliquei para ela que, em regra, os clientes que por mim buscavam eram aqueles envolvidos em acusações de tráfico de drogas; disse ainda que raramente clientes acusados de outros crimes vinham até mim. E coincidentemente hoje eu faria uma dessas audiências. A acusação? Estupro.
Isso mesmo. Aceitei a causa mesmo já tendo publicado aqui que recuso processos em que tenha havido algum tipo de violência física. Mas esse, desde o inicio, me deixou curioso. Eu acreditei no acusado! Olhando lá no fundo do olho dele, acreditei que de alguma forma ele estava sendo prejudicado. E felizmente eu não me enganei.
Em audiência realizada junto ao juízo da 5a Vara Criminal, a então vitima confessou que, por temer ser descoberta pelo pai, por não mais ser virgem, acusou um primo mais velho de tê-la estuprado, imaginando que, em virtude do laço familiar, seu pai “aliviaria” para o lado de ambos. Deu tudo errado e o pai dela levou todos para a Delegacia.
O nobre promotor, Dr. Vicente Augusto, não comprou a confissão “de primeira”, espremendo delicadamente a então vitima para que esclarecesse a acusação com mais detalhes. Após um minucioso interrogatório não restou outra alternativa a não ser absolver o réu da acusação. Saimos de lá com a sentença prolatada em audiência pela magistrada Dra. Andra Jane, esta preocupada com o prejuizo do réu ante a grave acusação. Quanto antes a sentença de absolvição, mais rápido a acusação desapareceria e, por consequencia, o risco que corria de ser vitimado pela rua. Ser acusado de tráfico faz de qualquer um, um alvo ambulante.
Saí de lá tranquilo por não ter recusado o cliente apenas em virtude da natureza da acusação, afinal de contas, estupro é um tipo de crime dos mais vis, cometido apenas por pessoas muito muito dodóis da cabeça. Ficou claro pra mim que não estou errado ao sempre ponderar, e jamais comprar a primeira versão, jamais comprar a capa do jornal. E sugiro que todos façamos o mesmo. Volto a lembrar que enquanto conversamos, eu e você, os policiais do Grupo Fera permanecem presos por um crime muito, muito suspeito.
Na história recente de nossa cidade, não são poucos os eventos que resolvemos comprar a primeira versão, aquela que as reportagens anunciam como verídicas, exclusivas, sem nos preocuparmos com maiores detalhes. A verdade é sempre outra vista de dentro, vista de perto.
É sempre bom lembrar que a missão dos jornais nos dias de hoje não mais é informar.
O objetivo é vender.
Concordo, colega.
Nesse seu caso, a sua desconfiança acerca da verdade dos fatos findou por inocentar alguém quem nunca deveria estar ali, preso; alguém que certamente deve estar se perguntando até hoje que mal que fez para merecer vaguear pelo sistema prisional.
E é, justamente, essa a função do advogado criminalista, a meu ver. Enquanto jornais escolhem as palavras mais rentáveis de suas manchetes, sem se preocupar com os prejuízos dos envolvidos, nós, advogados, temos de nos ater aos autos e à realidade do acontecido sem nos deixar contaminar pelos confetes jornalísticos.
Até mais,
Narajano,
Vivo dizendo que o trabalho de advogado de defesa é muito similar ao de um goleiro: Só é notícia quando falha ou nos raros casos em que defende pênalti em final de campeonato.
De resto, as milhares de vezes em que o goleiro defende de forma espetacular pouco importam. O povo quer é saber de gol.
Já observei situação parecida.
A diferença é que não houve mudança do depoimento da vítima: a narrativa absolutamente inverossímil (incluída aí a descrição do ato propriamente dito) e a ausência de marcas quaisquer no corpo da vítima (o que, no caso concreto, contradizia suas declarações) conduziram à absolvição por falta de provas.
Mas Dr, uma dúvida, o povo quer saber:
Rolou ou não rolou “um clima“ entre o acusado e a suposta vítima?
Ela o acusou, assim, do nada, ou existiu “algo“, digamos assim, mais caliente entre as partes no passado?